
A liturgia que segue "na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe" perdeu o fôlego nas últimas décadas, mas ainda mexe com o imaginário de quem acredita na palavra e no significado do CASAMENTO
por Isabela Mattiolli
De acordo com a pesquisa "Estatísticas do Registro Civil 2009", divulgada em novembro deste ano, o número de casamentos realizados no Brasil em 2009, recuou pela primeira vez após seis anos de crescimento: o país teve 935.116 casamentos registrados de pessoas com 15 anos ou mais. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a variação evidencia uma tendência de estabilidade ou leve oscilação negativa na comparação com o ano anterior.
Mesmo com o crescimento das uniões, registradas nos últimos anos, o país ainda não voltou ao patamar de casamentos dos anos 1970. Em 1974, por exemplo, a taxa era de 13 casamentos por mil habitantes. Em 2009, o patamar era de 6,5 casamentos por mil habitantes. O que se observa é que, nos últimos anos, tanto homens como mulheres estão adiando a idade do casamento. Em 1999, a idade média dos homens era de 27 anos e a das mulheres, de 24 anos. No ano passado, as mulheres passaram a casar, em média, aos 26 anos, e os homens, aos 29 anos.
Para a psicóloga Giordane de Paula esse adiamento do casamento pode estar relacionado há uma série de fatores, mas, principalmente à mudança de papéis enfrentada tanto por homens quanto mulheres nas últimas décadas. "Antigamente para a mulher era destinado o papel apenas de mãe e do lar, com o passar dos anos este papel vai abrindo espaço para outras atividades como a vida profissional e o cuidado consigo mesma. Estas mudanças contribuem para a modificação do casamento, onde as tarefas e papéis tanto dos homens, quanto das mulheres são revistas, discutidas e vivenciadas de outras formas", observa.
Giordane lembra que o movimento feminista, a pílula anticoncepcional, a liberdade sexual e outras transformações da sociedade, contribuíram com estas transformações e com estes novos posicionamentos de papéis. Quem divide a mesma ideia sobre o assunto é Jessé Guimarães, pastor há 14 anos que trabalha com aconselhamento a grupos de casais e noivos. De acordo com ele, a mudança de papéis entre homens e mulheres é responsável por boa parte das queixas e frustrações dentro do casamento.
O pastor pontuou situações comuns que geram crises no casamento. "A mulher quando passa a ganhar mais do que o marido, passa a querer mais direitos e isso também leva a uma crise. O marido se torna muito omisso na relação e a mulher precisa dar conta de outros papéis, quando isso acontece. O papel de provedor até então era do marido e a mulher era cuidar do marido e dos filhos, hoje, mulher é rainha do lar e provedora do mesmo (em muitos casos) e o marido se ausenta desta responsabilidade."
Precisamos, porém, tomar cuidado para não cair em discursos machistas ou feministas, quando colocamos em discussão a igualdade entre homens e mulheres, como lembra Giordane de Paula. "Homens e mulheres são diferentes e justamente são estas diferenças que podem propiciar relações saudáveis, onde mulheres e homens não precisam medir forças, mas sim unir as forças. A união e o respeito das diferenças é que constrói uma relação estável, onde os papéis se completam e a relação torna-se inteira e, consequentemente, mais saudável", explica.
Jessé Guimarães observa que os primeiros meses de matrimônio são importantes para que o casal se conheça a fundo, mas também é o período onde acontecem as primeiras frustrações. Para ele o casal precisa estar de acordo com os preceitos bíblicos de que "para fazer uma pessoa feliz, você precisa completar o outro. Isso é um processo contínuo. Eu preciso amar o outro – isso é importante nesse processo. Antes de ser um sentimento, o amor é uma decisão", esclarece.
De véu e grinalda
Além do adiamento visível do casamento, outro fator que anda em baixa é o tradicionalismo da celebração do matrimônio. A frase "casar de véu e grinalda", perdeu o fôlego nas últimas décadas, assim como boa parte dos rituais. Na realidade o que acontece é uma quebra de paradigmas e uma mudança significativa de valores.
Quem acompanha isso de perto é a promoter de eventos Fabiana Diniz, que organiza casamentos há 16 anos e observa que essa reviravolta nas celebrações se deve, principalmente, a falta de tempo dos noivos em preparar o evento e, por conta disso, preferem se atentar com o imediatismo em suas possibilidades e não mais aos detalhes programáticos relacionados ao tradicional. "As pessoas vivem em uma era em que o tempo está cada vez mais escasso por conta de trabalho, estudos, etc.. E aí optam por alguém que já tem ampla experiência e dinamismo para a realização do evento", considera.
Fabiana salienta que, hoje, os noivos preferem contar com o auxílio de uma profissional, a pedir ajuda a algum integrante da família. Isso também é um ponto que, segundo ela, gera uma mudança na estrutura desta celebração. "A Assessoria ganhou mais espaço por conta da necessidade de sempre melhorarem e fazer caminhar junto: atualidade e tradição, sem tirar o encanto mágico do evento. Antes as noivas que optavam por ter algum integrante da família na organização: irmã ou mãe, viam as mesmas comprometidas e não participantes da festa e as noivas, assim, não se sentiam realizadas", aponta.
A promoter de eventos comenta outras mudanças nos elementos da celebração que foram alteradas ao longo das décadas. "A escolha do vestido, tirando de cena o branco total e incluindo modelos off-white (mais amarelados) ou blanc casse (branco quebrado). Fotos menos posadas, mais criativas. Bolos artísticos. Ambientes climatizados. Junção de áudio, vídeo, nas festas, entre outros".
Outro ponto com relação a essa mudança nas celebrações é a do ambiente onde elas acontecem. Antigamente o matrimônio era realizado na igreja e depois os convidados eram recebidos em casas próprias para eventos. Hoje, observa-se que tanto a benção divina quanto a festa do casamento é realizado num mesmo ambiente. "Antigamente era mais comum ter a igreja de pano de fundo para o casamento. Hoje vemos uma mudança de ambientes, o padrão tradicional mudou bastante. Muitos casais optam por realizar a celebração na própria casa ou salão de recepção, por exemplo, mas sem perder o caráter religioso", pondera o pastor Jessé Guimarães.
Para a psicóloga Giordane de Paula o ritual do casamento pode ser herdado ao longo do tempo, mas está ligado diretamente com uma carga de emoções e sentimentos. "Neste momento é importante o respeito da vontade do casal, que façam planos, sonhem e realizem de acordo com as suas possibilidades. O mais importante é que ambos estejam conscientes da escolha que estão fazendo e que estejam dispostos a iniciar uma vida juntos, mantendo a individualidade de casa um e na busca de uma relação satisfatória", conclui.
*Foto retirada do blog Constance Zahn
*Reportagem publicada na revista Recco Magazine (dezembro, 2010)
0 comentários:
Postar um comentário